
Semana da Pátria

Numa alusão imaginária, encontrei meu país cabisbaixo com o olhar perdido diante do remanso de um dos muitos rios que correm em seu território. Em mente, muitas citações do nosso cancioneiro, da nossa poesia inefável. E navegando sobre seus questionamentos os porquês de tanta ingratidão, diante da generosidade desse ventre, dessa mãe gentil.
Marejavam os olhos do meu país pela junção de tantas mágoas que ele não conseguia indexar numa lógica plausível.
Fugia a sua compreensão tantos açoites, tantas traições diante de um amor tão abrangente que até as forças da natureza eram complacentes com o quadro de rara beleza íntima.
Sobre seus ombros, o garboso lindo do pavilhão que o representa nos momentos de festa ou de dor. Mas o certo é que ele queria que esse manto estivesse também no coração da nossa gente, com o ardor respeitoso e o entendimento que ele transcende a manifestações ruidosas e se põe no “panteon” maior dos que tem uma pátria.
Murmurava o meu país um lamento pungente quando suas vontades estampadas em seu hino são balbuciadas de forma indolente e sem sentido por aqueles que deveriam entender a sua mensagem de amor, de paz e de valores que seus versos incitam e não cair no vazio de um desamor.
Pranteava o meu país olhando o firmamento buscando uma resposta divina para certas intolerâncias de nossa gente, mesmo com a vocação para compreensão e a convivência pacífica e respeitosa entre os antagônicos.
Meu país estava deprimido porque comemoravam há sua semana, o aniversário de sua condição de nação sem grilhões de dependência formal. Mas ele fazia uma analogia dessas comemorações com aquele que já alcoolizado numa noite de Natal, olha para um crucifixo com o Cristo ensangüentado na sua paixão e levanta um brinde dizendo-lhe que estamos comemorando o seu aniversário.
A mágoa do meu país gira em torno da nossa liberdade que é usada para cercear, para segregar, para humilhar. Ele não compreende o exercício falho da cidadania, do esquecimento de direitos inalienáveis e da sorrateira e insana vontade de ludibriar pessoas e coisas.
Na dignidade do meu país não é crível atentar contra seus recursos naturais tão abrangentes, de riqueza rara e beleza inconteste.
No pragmatismo do meu país é inconcebível definhar nossas defesas institucionais. Mutilando nosso braço forte e nossa mão amiga. Cegando o Cisne Branco em nossas águas territoriais e cortando as asas que protegem o que é nosso; nos tornando passíveis a populismos externos de ocasião entre outas cobiças.
Na dignidade do meu país não há espaço para tantos códigos que regulamentam o que é elementar. Que renega a natural dignidade humana, causa pétrea da Magna Carta, em pantomima jurídica ridícula e execrável.
Na memória do meu país consta uma abolição da escravatura. Mas também ali está uma indagação do poeta assim: “ ...pergunte ao Criador quem pintou esta aquarela. Livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela”.
Meu país, trôpego pela emoção pergunta aos nossos lúdicos palanques oficiais também usando do lirismo dos nossos letristas, sobre os rumos da nossa democracia colocando a seguinte questão:
“Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura
Ao ver que o sonho anda pra trás
E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?
Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho
A praça era alegria sadia
O povo era senhor
E só uma voz, numa só canção
E foi por ter posto a mão no futuro
Que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar
Quero um país melhor”
Trago sim palavras de lamento no lugar de uma peça de exaltação. Meu país não carece disso; ele é por demais generoso e digno. E certamente nas manifestações públicas, nos corredores do poder, no soar marcial dos desfiles estão canalizadas a indignação pelo desrespeito a essa Pátria; cujos valores da liberdade de expressão que este país me concede e de absoluta consciência que me ampara um Templo Maçônico, que saúdo a minha pátria demonstrando o asco que nutro por quem ocupa os Poderes Constituídos da nação.
O Brasil hoje segue uma trilha ascendente, não pela ação de seus governos; mas sim pela ordem natural das coisas, respaldadas em fatores de lógica econômica.
Sangra o meu país pelos golpes covardes da imoralidade pública, do desdém ao que é serio e patriótico.
A liturgia do poder não é algo semântico ou de estética formal. Ela exterioriza os valores que deveriam ser endógenos nos homens públicos. Que deveriam temer a clava forte da justiça e o veredicto do povo. E lembrando que povo não é um séqüito sem nome; aliás, povo já está cansado desse nome.
Os exemplos oriundos do Poder Central é algo que envenena a normalidade institucional. Que coloca em risco a estabilidade da federação e destrói os limites do cidadão, mesmo aqueles que trazem consigo uma forte e límpida formação familiar.
Não existe momento melhor de fazermos um exame de consciência do que na efeméride da Semana da Pátria e entendendo que este país só não se transforma em um vulcão social, graças ao trabalho que instituições como a nossa, as igrejas, as doutrinas, os clubes de serviço e ONGs sérias, realizam ao longo de nossa história. E não a esmola oficial usada criminosamente para interesses partidários e não republicanos.
Certamente o Brasil tem algumas gerações que hão de vir já maculadas por toda essa irresponsabilidade política e pela voracidade do pensamento do “tudo a qualquer preço”. Mas tudo a qualquer preço, não pode, não deve, não é legal.
A maior homenagem que podemos prestar a Pátria do Evangelho, a esta nação que encanta o mundo, é praticarmos a cidadania na sua essência. Buscando o que é certo, o que é lícito, o que é moral. É não vendermos nossas consciências ou transformarmos nossas ideologias de “per si”, em moeda de troca, em culto a uma confraria de agradecidos. Pois, salvo melhor juízo, somos todos responsáveis por esses porcos que chafurdam nessa lama, e dessa responsabilidade não podemos nos esconder.
E a Maçonaria brasileira deve também entender que a nação espera muito dela, como sempre esperou. Definitivamente precisamos colocar a Ordem a serviço da Pátria; e não perdemos tempo com o inflar de egos palacianos, de fomentar divisões e conseqüentemente o parir de Potências, cuja denominação só pode ser ironia.
A Independência teve abrigo nos Templos; e dos Templos devem sempre surgir vozes em defesa da pátria. Ecos de respeito, de comprometimento e de senso de realidade que nos faz ver que os políticos pensam nas próximas eleições, mas os estadistas pensam nas próximas gerações.
Que o Grande Arquiteto do Universo ilumine e guarde o Brasil!